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Palestinian Grassroots Anti-apartheid Wall Campaign

Guerra em Gaza é contra a própria humanidade

Enquanto escrevo este artigo, bombas caem ao nosso redor.

A eletricidade é extremamente restrita, a água dificilmente está disponível, há barulhos assustadores de bombardeios, mísseis, aviões e explosões constantes.

Fico acordado à noite, com medo, aguardando os bombardeios; acordado de dia, ajudando os feridos, procurando alimentos, remédios, enterrando nossos mortos e à procura das ruínas do que foram outrora casas de família.

O número de mortos até o dia 6 de agosto chegou a 1.813 (398 crianças, 207 mulheres, 74 idosos); os feridos eram 9.370 (2.744 crianças, 1.750 mulheres, 343 idosos) –0,1% do total da população. Uma criança nasceu e foi morta durante este ataque israelense.

Uma geração inteira na Faixa de Gaza cresceu com a experiência de repetidos massacres e destruição massiva da infraestrutura que sustenta a vida no século 21.

A recente série de massacres contra a Faixa de Gaza começou em 2006, continuando em 2008/9 e 2012, tornando a vida insuportável após oito anos de cerco um desumano contra a área, ocupada em 1967 por Israel.

Este último massacre não começou com a morte de três colonos israelenses há algumas semanas, como tem sido falsamente noticiado por muitos órgãos de comunicação social ocidentais.

Estes assassinatos podem nem ter sido cometidos por um palestino, ainda que ouçamos essa alegação acriticamente repetida até mesmo pelos grupos de comunicação que esperávamos fossem desafiar o discurso israelense.

Esta não é uma guerra entre Israel e o Hamas.

Eu sou um professor universitário laico, que ainda se lembra dos tempos em que todas as entradas e saídas de Gaza não haviam sido hermeticamente trancadas por Israel.

Nenhuma das 398 crianças mortas eram combatentes do Hamas, tampouco as três escolas da ONU eram instalações do Hamas.

Isso não é uma guerra contra a população de Gaza, onde muitos são refugiados do deslocamento provocado por Israel em 1948. Esta é uma guerra contra a própria humanidade.

Políticos israelenses, como o vice-presidente do Parlamento, Moshe Feiglin, levantaram publicamente o que são, possivelmente, os reais objetivos da agressão militar quando. Feiglin sugeriu que "eles querem transformar Gaza em Jaffa, uma próspera cidade israelense com um número mínimo de civis hostis", acompanhado por uma ética de guerra definida como "desgraça ao malfeitor e desgraça ao seu próximo".

A população sobrevivente será, então, transferida para acampamentos de tendas na fronteira sul do Sinai "até destinos de emigração relevantes serem determinados."

Tudo isso é televisionado, tuitado e compartilhado on-line em tempo real. Desta vez, ao contrário de 1948 e de 1967, e mesmo de 2006, 2009 e 2012, ninguém pode dizer que não sabia o que Israel pretendia fazer.

No entanto, os governos de todo o mundo estão comprometendo a humanidade.

Hoje, a América Latina, nossos irmãos e irmãs que realmente entendem a urgência da nossa necessidade, mais uma vez nos traz esperança.

Cinco países convocaram seus embaixadores para consulta, somados à Venezuela e Bolívia, que já tinham cortado relações diplomáticas com o apartheid israelense durante os massacres anteriores em Gaza.

A Argentina pediu o fim da impunidade israelense, Dilma Rousseff chamou o que está acontecendo conosco de um "massacre" e o Chile suspendeu as negociações para um Acordo de Livre-Comércio com Israel.

Cada um desses atos restaurou para nós um pouco da humanidade que Israel tenta tirar de nós com as agressões diárias. Afirmam os nossos direitos humanos e a nossa humanidade com suas ações e nos lembram de que temos algum valor nos corações de outros seres humanos mundo afora. Isso tudo é o mais esperançoso que se sente aqui em Gaza.

Mas os palestinos hoje precisam mais do que esperança. Precisamos de uma ação concreta e sustentável para parar o massacre.

Mais de 1,5 milhão de pessoas acabam de assinar uma petição global pedindo que empresas envolvidas em crimes de guerra israelenses não recebam investimentos.

Muitos outros milhões estão nas ruas pedindo um embargo militar.

A Espanha e a Inglaterra já foram obrigados pela pressão da opinião pública a reverem suas relações militares com Israel.

No Brasil, 80 organizações da sociedade civil com as quais temos trabalhado durante anos exigem que o governo pare de financiar o regime de apartheid israelense; que seja decretado um embargo militar e que se suspenda o acordo de livre-comércio com Israel.

Enquanto bombas estão sendo despejadas em nossas casas, abrigos e infraestrutura -por drones e aviões fabricados pela Elbit Systems, companhia aeronáutica israelense, e por outras empresas militares israelenses, que estão usando nossas vidas como campos de testes e instrumentos de propaganda para os seus lucros-, eu pergunto: Por que o Brasil anunciou um contrato com uma subsidiária da Elbit Systems no mesmo dia em que o Exército israelense lançou seu massacre em Gaza?

Por que o governo do Rio Grande do Sul insiste em manter um contrato que visa essencialmente canalizar financiamento público e conhecimento acadêmico brasileiro para a Elbit Systems, uma empresa boicotada por instituições públicas e privadas em vários países ao redor do mundo?

Finalmente, como é que o Brasil convocou seu embaixador em Tel Aviv para consultas e, ao mesmo tempo, Celso Amorim, a mesma pessoa que, como ministro das Relações Exteriores, lutou pelos direitos palestinos a um Estado palestino, agora em seu papel como ministro da Defesa, mantém um escritório da Força Aérea Brasileira em Tel Aviv com o mesmo Exército israelense que nos está matando e mutilando?

O Brasil detinha a presidência rotativa da Assembleia-Geral da ONU quando concordou-se em criar o Estado sionista de Israel na Palestina, mais de 60 anos atrás.

Hoje, o Brasil continua a desempenhar um papel fundamental na promoção do reconhecimento do Estado da Palestina pela mesma Assembleia-Geral.

O Brasil de hoje tem tanto poder econômico quanto político na nova ordem mundial pós-Guerra Fria.

Com o poder, vem a responsabilidade, na qual a ação pesa tão fortemente quanto a inação.

Durante os funerais em Gaza, a posição política do Brasil no massacre contra nós está sendo elogiado.

No entanto, isso contradiz com as decisões econômicas e militares, que são menos visíveis ao público palestino.

Agora que sabemos, temos uma pergunta a fazer ao Brasil: quando o país vai parar de financiar os drones e aviões que nos bombardeiam?

 

Haidar Eid é professor associado de literatura pós-colonial e pós-moderna na Universidade Al-Aqsa em Gaza

 

Publicado: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2014/08/1498736-opiniao---guerra-em-g...

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